Santa Cruz - 12 de Novembro de 1991

...a areia branca de Lecidere vestiu um enorme manto vermelho de sangue

No XXº Aniversário do massacre de Santa Cruz, a Fundação Mário Soares e o Arquivo & Museu da Resistência Timorense assinalam esta data com a publicação de diversos documentos que elucidam aqueles trágicos acontecimentos.


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Bandeira guardada no abrigo de Konis Santana em que são visíveis os traços de balas e de sangue.
Esta bandeira, que não é oficial das FALINTIL, terá sido usada durante as manifestações em Díli.

Minutos antes das 8 da manhã do dia 12 de Novembro de 1991 rajadas de metralhadoras e silvos de sirene ecoaram em Dili.

O pânico, a confusão e o terror instalaram-se nas ruas, com jovens em fuga e anormal movimento de viaturas militares.

Naquela manhã de Novembro encontravam-se na capital vários jornalistas internacionais, bem como activistas de movimentos de solidariedade. Muitos deles estavam no território há várias semanas, para fazer a cobertura da anunciada visita da Delegação Parlamentar Portuguesa, cujas negociações tinham sido iniciadas em 1988 entre Jakarta e Lisboa. O arrastar do processo durante anos tornou-se tortuoso para os timorenses, que nele tinham depositado grandes expectativas. Em Outubro, quando tudo apontava para que finalmente a Delegação entrasse em Timor-Leste, com a missão de observar o que se passava e não de investigar, conforme o acordado entre as partes, os timorenses viram defraudadas as suas fortes expectativas com o anunciar do cancelamento da visita. O nome Jill Jolliffe, jornalista australiana que integrava a comitiva, foi vetado pela Indonésia e a Delegação Parlamentar recusou efectuar a missão.

Instalou-se um clima de desapontamento, apreensão, e sobretudo de terror entre o Povo timorense. Durante meses e meses muitos tinham exposto a sua identidade, pondo em risco as suas vidas e das suas famílias, ao envolverem-se nos preparativos de recepção à tão propalada visita. Agora, entregues a si próprios, e longe dos olhares do mundo, temiam a brutalidade das represálias das forças militares ocupantes.

Entretanto, no dia 28 de Outubro, num assalto à Igreja de Motael um Ninja (designação dada a civis timorenses, armados pelos serviços secretos indonésios; agitadores) assassinou o estudante Sebastião Gomes. O provocador foi linchado e os jovens reagiram com violência.

Os ânimos estavam demasiado exaltados, num misto de frustração e cólera.

Em toda a cidade de Dili ocorreram numerosos e violentos protestos anti-indonésios, incontáveis prisões, torturas e rusgas. As palavras de ordem dos heróicos guerrilheiros das FALINTIL, que nas Montanhas lutavam na maiore das dificuldades e penúria de meios, "Pátria ou Morte", ecoavam agora nas ruas da capital.

Na manhã do dia 12 de Novembro, após a celebração da missa na Igreja de Motael em memória de Sebastião Gomes, pelo padre Alberto Ricardo, formou-se uma enorme procissão rumo ao Cemitério de Santa Cruz, onde o seu corpo se encontrava sepultado.

A multidão, onde predominavam jovens e estudantes, gritava palavras de ordem pró-independência. Empunham bandeiras e cartazes com "Viva as FALINTIL", "Viva a Independência", "Viva Timor-Leste", "Viva Xanana", e exigiam a retiradas das forças indonésias e a realização dum referendo em Timor-Leste com vista à autodeterminação.

Quando a enorme manifestação chegou a Santa Cruz reinava uma aparente calma, não se avistando quaisquer forças militares.

Uns dirigiram-se para o cemitério, outros permaneceram no exterior junto ao muro.

De repente, alguém se apercebeu que a estrada por onde os manifestantes tinham passado há minutos antes estava agora fechada por um camião militar cheio de tropas.

De outra direcção ia surgindo uma coluna de militares fardados de castanho, armados de M16, marchando lentamente.

Instalou-se a confusão entre aquela enorme massa humana, pressentindo o que iria acontecer em Santa Cruz naquela manhã de Novembro de 1991.

Incrédulos, os repórteres que estavam no local registaram, contaram e mostraram ao mundo adormecido os momentos que se seguiram.

Reunida a multidão, dentro e fora do cemitério, quando se dava início às orações em memória dos tombados, os militares em uníssono, e numa acção concertada, empunharam as armas, fizeram pontaria aos alvos humanos, e abriram fogo indiscriminadamente.

Homens, mulheres e crianças indefesos caíam no chão, rolavam com o impacto das balas cravadas no corpo. Corpos ensanguentados ainda com forças arrastavam-se em fuga. Os que escaparam à fúria das armas tentavam desesperadamente correr. Os soldados pisavam os corpos que jaziam em terra e faziam pontaria aqueles que permaneciam de pé. Perseguiam rapazes, raparigas, e abatiam-nos pelas costas. Uma segunda rajada de metralhadora matou os que permaneciam de pé e dispersou os que ainda não tinham conseguido escapar. Os militares cercaram o recinto, prenderam os que ainda ali estavam e recolheram os corpos tombados pelas balas atirando-os para os camiões do exército. Os indefesos ainda vivos prostrados por entre as campas e que não se conseguiam movimentar foram mortos pelos golpes de baionetas.

O mundo adormecido viu e olhou atónito para este acto concertado do exército indonésio e ficou chocado com a barbárie do regime ocupante, graças à coragem dos jornalistas presentes, designadamente Alain Nairn e a sua colega Amy Goodman, Steve Cox e Max Sthal.

Konis Santana, Chefe do Conselho Executivo da Luta, na sua Mensagem por ocasião do segundo aniversário do Massacre traça o seguinte retrato daquela manhã de Novembro:

"A vossa pacífica manifestação teve um preço muito caro, caríssimo, queridos jovens mauberes, raiz nova de Timor-Leste. Em Santa Cruz centenas de corpos indefesos forma dizimados a rajadas de metralhadoras e M16 americanas.
Carnes foram despedaçadas em Santa Cruz servindo de adubo à nossa Terra.
O vosso sangue generoso vertido transformou-se num manto vermelho que, regateando os esgotos de Dili, ligavam Santa Cruz ao mar, tornando a areia branca de Lecidere num brilhante manto vermelho de sangue.
Os corpos dos vossos companheiros tombados eram lançados às viaturas como sacos de areia e ou sepultados em valas comuns ou lançados ao mar, servindo de alimento aos tubarões dos nossos mares.
Os outros vossos companheiros atingidos ou eram apunhalados a sangue frio ou eram levados ao hospital militar indonésio e tratados desumanamente, vivendo os últimos momentos de vida num desespero agonizante.
Vossas companheiras, nossas irmãs atingidas, eram despidas e seus seios eram cortados, retratando a selvajaria animalesca dos soldados assassinos de Tri Soetrisno."
A ferocidade monstruosa da repressão inimiga que abateu sobre vós provocou uma situação de terror, de pânico e de desespero."

As estruturas da Luta calcularam que este "acto de Estado deliberado" dos militares indonésios custou ao Povo timorense 270 mortos, 278 feridos e 270 desaparecidos. Nesta contabilidade arrepiante figura um estrangeiro, o jovem activista neo-zelandês Kamal Bamadhaj, de 21 anos. Profundamente envolvido em movimentos de solidariedade pró-democracia no Sudeste Asiático, e em manifestação contra a posição do governo australiano para com Timor-Leste, tinha-se deslocado a Dili para acompanhar a visita da Delegação Parlamentar Portuguesa. Baleado, não resistiu aos ferimentos e viria a sucumbir no Hospital Militar. O seu corpo viria a ser resgatado pelos familiares e trasladado para o seu país natal. A esmagadora maioria das famílias dos mortos e desaparecidos timorenses nem sequer a cerimónias fúnebres teve direito, ainda hoje não sabem onde estão os seus corpos...

Kamal deixou ao mundo um impressionante diário sobre o que viu e viveu em Timor, durante Outubro e Novembro, publicado, e comentado pela sua irmã, em 1997.

À medida que a tarde caía, abatia-se um silêncio de morte na capital de Timor-Leste.

A dor, o pânico, o terror e a apreensão que os timorenses já tão bem conheciam, por com eles conviverem há 16 anos dia e noite, atingiram proporções incontáveis.

As celas das prisões ficaram lotadas. As ruas encheram-se de militares e polícias fortemente armados.

Dia e noite incessantes e permanentes revistas às casas, perseguições, rusgas, operações de controlo de movimentos.

O ocupante redobrou a violência e a tortura sobre velhos e novos, homens, mulheres e crianças. Nada escapava à brutalidade do regime de Sohearto.

A morte e desaparecimento de centenas de jovens, a fuga para a montanha e para o estrangeiro, para escapar às perseguições permanentes, levaram ao desmantelamento da estrutura das redes clandestinas e à destruição das organizações da Juventude. Santa Cruz, ainda que representando um rude golpe para Luta, transformou-se num enorme revés para Sohearto, e num crescente incómodo para o seu regime totalitário.

Com o destaque internacional daquela manhã de 12 de Novembro, os militares indonésios foram expostos ao mundo enquanto eficiente máquina assassina e as estratégias diplomáticas que o regime ditatorial de Sohearto vinha há muito encenando perderam a eficácia que tinham tido até então.

Nem os Relatórios fantoches que ordenou para apuramento de responsabilidades convenceram a opinião pública internacional.

O Canadá, a Dinamarca e a Holanda suspenderam os programas de ajuda que até à data estavam em vigor, e o Congresso dos Estados Unidos da América suspendeu o Programa de Ajuda Militar, no âmbito do Programa Internacional Militar de Educação e Treino... E, em finais de Novembro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros australiano, Gareth Evans, afirma publicamente que o Massacre de Santa Cruz se traduziu "no comportamento aberrante de um sector militar"...

O mundo ficou perplexo com tamanha barbárie, há anos o dia-a-dia das populações nas vilas e montanhas. A brutalidade e violência desmedidas das forças ocupantes sobre os timorenses indefesos levaram a questão de Timor-Leste para a agenda política internacional.

O Presidente da República de Portugal, Mário Soares, no discurso proferido por ocasião do 43º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Dezembro de 1991, condenou veementemente o bárbaro massacre e a ocupação de Timor-Leste pelo regime ditatorial de Sohearto defendendo "o seu direito inalienável a dispor livremente do seu próprio destino."

O massacre de 12 de Novembro de 1991, um de tantos e tantos outros silenciados durante os 16 anos de ocupação, produziu efeitos inesperados que embaraçaram a Indonésia.

A condenação internacional da brutalidade e violência sobre o indefeso povo timorense representou um volte face na Luta da Resistência do Povo Timorense, conferindo-lhe a partir de então uma irreversível dimensão de causa internacional.

"Quando virão as Nações Unidas a Timor? (...) Venham ver as fossas onde as basculantes do exército regular indonésio despejou os nossos filhos, os nossos irmãos e irmãs, os nossos companheiros. Venham antes que tudo apodreça" Apelo de autor não identificado, num relato dos acontecimentos de 12 de Novembro.

O sangue de milhares e milhares de timorenses mortos e desaparecidos, a mando dos Generais que ansiavam por mais uma promoção, uma condecoração, continuou a empapar a Terra das vilas e montanhas de Timor-Leste durante anos e anos. E a ONU só chegou em 1999...

Timor-Leste, 24 anos de Resistência contra o ocupante que não conhecia limites para a barbárie; sofrimento inenarrável; um terço da população dizimada pela fome e miséria, pela tortura, pelas balas, enfim, o paradigma da pequena nação cinicamente sacrificada pela agenda da geopolítica internacional.



Consulte os filmes de Max Stahl no youtube:

E veja também os restantes documentos do Arquivo & Museu da Resistência Timorense relacionados com o massacre de Santa Cruz