Documentos da Resistência Timorense


"O Arquivo da Resistência e a Identidade Nacional"

José Mattoso

O Prof. José Mattoso numa cerimónia de entrega de documentos da Resistência

Um dos maiores problemas culturais dos países de origem colonial é, como se sabe, o questionamento da sua identidade. Com efeito, a maioria deles retomou as fronteiras traçadas pelos países colonizadores. Estas, por sua vez, nem sempre correspondiam a fronteiras étnicas; resultavam de acordos e compromissos políticos definidos pelos interesses europeus. Mas a marca dos colonizadores, concretizada sobretudo na língua e nos hábitos administrativos, permaneceu, e a maioria das fronteiras coloniais perpetuou-se, mesmo quando eram arbitrárias. Daí resultaram frequentes conflitos étnicos que ainda hoje ensanguentam vários países africanos e asiáticos. Muitos têm de se sujeitar à dolorosa prova que consiste em resolver pela força as contradições que opõem entre si as componentes étnicas do território, apoiadas em recursos económicos ou militares desiguais, sustentadas ou não por forças imperialistas de outros países que procuram explorar conflitos internos em função dos seus próprios interesses.

Timor não escapa a esta problemática. Tem um traçado fronteiriço imposto pelo arbítrio das vicissitudes coloniais, sofreu as violências da guerra civil e os horrores de uma longa dominação estrangeira, o seu governo não parece ser capaz de vencer a oposição ou a resistência passiva à língua e à estrutura administrativa que escolheu. Depois de ter ultrapassado de uma forma quase milagrosa a prova da dominação estrangeira, tem agora de demonstrar que a sua consciência de identidade é suficientemente forte para resolver os conflitos internos, de base étnica e de base política, e para sustentar uma cultura própria face às culturas hegemónicas que o rodeiam, nomeadamente a indonésia e a australiana.

A prova do suporte popular à luta pela independência, está feita de uma maneira exemplar: foi ela que sustentou a luta armada e que deu a uma meia dúzia de guerrilheiros sem armas nem dinheiro a capacidade para enfrentar durante vinte e quatro anos dezenas de milhares de soldados com armamento pesado, treinados pela maior potência militar do mundo. Foi ela que fez do slogan «Pátria ou morte» um princípio tragicamente verdadeiro, dezenas de milhares de vezes demonstrado por outras tantas humilhações, assassinatos, torturas, violações. A vontade popular de ser independente é, pois, um facto bem demonstrado, sem que seja preciso perguntar se os seus protagonistas sabiam porquê.

Todavia a independência política, sobretudo de países jovens, não é um facto definitivo. As independências ganham-se e perdem-se. A prova do seu enraizamento é o tempo. Uma independência recente é sempre ameaçada. Mesmo que permaneça como facto político, pode extinguir-se como facto cultural. No mundo de hoje já não há colónias, mas o colonialismo cultural e económico podem fazer da independência uma farsa. Mas devemos esperar que um país que lutou com tanto sacrifício e tanta tenacidade pela sua independência, lute agora com a mesma determinação pela consciência cultural da sua identidade.

Dentre as diversas componentes da consciência de identidade, a história colectiva do povo é, sem dúvida, a mais importante. No caso de Timor, é óbvio que a Resistência constitui o facto histórico mais importante da sua curta história. Por outro lado, é também aquele que melhor representa a consciência colectiva. Está na memória de toda a gente, envolveu pessoalmente quase todos os Timorenses, traduz-se em muitos e muitos episódios que demonstram o seu carácter popular.

Trata-se, porém, de um facto expresso por uma memória frágil, enquanto não for escrito. Num país com 54 % de habitantes com menos de 15 anos, pode-se esvair em poucas dezenas de anos. Se os Timorenses querem, de facto, manter a convicção forte de que merecem a independência, têm de escrever tão depressa quanto possível a história da sua luta. E se a não podem escrever toda de uma vez, em poucos anos, têm, pelo menos, de guardar cuidadosamente os seus testemunhos escritos (e também o maior número possível de testemunhos orais, por meio de gravações vídeo e áudio). O Arquivo da Resistência, organizado com as fotografias e documentos escritos e áudio que até hoje foi possível recolher, por iniciativa e sob os auspícios do Presidente Xanana Gusmão tem, é claro, a função de preservar a memória da acção colectiva de que Timor-Leste nasceu como país independente.

Ao colocar consideráveis recursos pessoais e técnicos ao serviço deste empreendimento, a Fundação Mário Soares entende prestar um serviço importante a Timor-Leste. A sua colaboração foi decisiva para recuperar uma documentação muito importante, porque provém do próprio Comando da Luta e se conserva bastante completa, nas suas componentes essenciais, para os anos 1991 a 1999, mas que corria sérios riscos de desaparecer em breve, dadas as condições físicas em que foi guardada. Além disso, a Fundação recolheu uma grande quantidade de documentos de várias procedências para poder completar, com documentos dos anos 1975 a 1991, os dados fornecidos pelo arquivo do Comando da Luta Ao mesmo tempo, a Fundação criou as melhores condições de acesso para que essa documentação possa ser historicamente interpretada da maneira mais prática e mais rápida. Resta apenas o problema de seleccionar os documentos que contêm matérias sensíveis e aos quais só pode haver acesso dentro de alguns anos. Como é evidente, este é um problema político cuja resolução cabe apenas aos órgãos políticos de Timor-Leste.

Mas o valor dos Documentos da Resistência Timorense não resulta apenas de ser uma fonte essencial para a história e a identidade de Timor-Leste. A Resistência do seu povo é um dos factos mais impressionantes da História contemporânea. É um dos raros casos históricos de uma acção genuinamente popular com efeitos políticos de âmbito mundial, cujos pormenores e componentes se podem estudar com grande detalhe. Faz já parte da memória de toda a Humanidade.

José Mattoso



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